“O capitalismo, como conhecemos, acabou”, sugeriu, no segundo semestre de 2018, um novo relatório encomendado por um grupo de cientistas nomeados pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

Carlos Teixeira
Jornalista I Radar do Futuro

“Acabar com a mudança climática requer o fim do capitalismo”. Em um texto publicado no dia 18 de março, o articulista de economia e políticas sociais do The Guardian, Phil McDuff, demonstra toda a sua incredulidade em relação à capacidade das atuais lideranças econômicas e políticas globaisde fazer alguma diferença no enfrentamento dos problemas atuais e futuros do clima. E da sociedade de uma forma geral.

Ele não está só. Há uma profusão de indivíduos e instituições emitindo sinais de alerta diante dos riscos ambientais, econômicos, políticos e sociais. São os sinais que podem comprometer o futuro de todas gerações, inclusive e especialmente dos jovens. Apenas os mal informados ou mal intencionados acreditarão que essa seja uma onda gerada por esquerdistas, anarquistas ou anti-capitalistas, críticos do sistema hegemônico.

“O capitalismo, como conhecemos, acabou”, sugeriu, no segundo semestre de 2018, um novo relatório encomendado por um grupo de cientistas nomeados pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU). A principal razão? “Estamos passando rapidamente por um processo de transição para uma economia global radicalmente diferente, devido à nossa exploração cada vez mais insustentável dos recursos ambientais do planeta e à mudança para fontes de energia menos eficientes”, argumentam os cientistas.

Da direita à esquerda

Também o Fórum Econômico Mundial (WEF, da sigla em inglês), que reúne anualmente em Davos, na Suíça, milionários e lideranças políticas e empresariais de todo o planeta, expressa preocupações com o que virá pela frente. No Relatório de Riscos Globais de 2018, a entidade reconhece “o período de elevada incerteza global e grande insatisfação popular com a ordem política e econômica imperante”. O estudo clama — a palavra é esta — “por reformas fundamentais do capitalismo de mercado e uma reconstrução da solidariedade entre os países”.

Paul Mason, jornalista britânico, autor do livro “Pós-Capitalismo – um guia para o nosso futuro”, posicionado à esquerda, aposta que o sistema hegemônico atual não suportará a sociedade conectada em rede que ajudou a criar. Já o historiador Yuval Noah Harari, assumidamente liberal, acredita  que, para lidar com as rupturas tecnológicas e econômicas inéditas do século 21, precisamos desenvolver novos modelos sociais e econômicos o quanto antes. Ações são necessárias porque as pessoas se tornam irrelevantes diante do progresso tecnológico. “Um vácuo deixado pelo colapso do liberalismo”, diz o autor de best-sellers recentes como Homo Deus e 21 Lições para o Século 21.

Aumento de tensões

Alheias aos debates, sejam os superficiais, os sofisticados ou os de boteco, as pessoas estão apreensivas diante do futuro. De uma hora para outra, a sua cunhada revela a preocupação com o futuro da filha, de 14 anos. Nunca a pergunta “o que você vai ser quando crescer” esteve tão carregada de dúvidas. Não que a mãe esteja mais tranquila quanto às perspectivas da própria família, dependente, no presente, de humores do mercado imobiliário.

O cenário é de aumento de tensões sobre as perspectivas do sistema global de produção no cenário da era do desalento, capaz de eleger pessoas inexpressivas para administrar países e de mobilizar radicalismos violentos. Há uma combinação de variáveis negativas influenciando o estado de espírito das populações. Em especial quem depende do trabalho para sobreviver não sente efeitos positivos da lenta recuperação econômica após a crise de 2008, mesmo que as tais novas lideranças digam que o mundo está ficando melhor.

E nem adianta muito dizer que a tecnologia em crescimento exponencial vai ser capaz de gerar mais empregos do que eliminar no futuro. A maioria absoluta dos consultores segue a lógica linear ao prever que a revolução do futuro, digital, será semelhante às outras, da era da indústria mecânica. Tudo parece muito incerto quando os jovens continuam sendo o contingente que mais sofre os efeitos do desemprego. E, como atesta a organização não governamental Oxfam, a concentração de renda segue em trajetória de crescimento sem controle.

Mobilização de milionários

O reconhecimento de que algo anda errado vem de onde menos se espera: De milionários dos Estados Unidos. Ray Dalio, por exemplo, um bilionário frequentador das listas de mais ricos do mundo. Para ele, o capitalismo falhou e precisa de uma reforma. Como resultado, o tradicional sonho americano virou um pesadelo, capaz de levar a conflitos sociais bastante graves.”O capitalismo agora não está funcionando para a maioria dos americanos porque gera resultados inadequados. Isso porque, nos últimos anos, “o capitalismo está  produzindo espirais de alta para os que têm [oportunidades] e de baixa para os que não têm”, avalia.

Em tom semelhante, uma das herdeiras do império Walt Disney classificou como “insano” o pagamento de R$ 260 milhões feito pela Disney ao seu CEO, Bob Iger, no ano passado. Segundo matéria da BBC, “em uma série de 22 tuítes postados no domingo, 21 de abril, ela defendeu que os salários e bônus pagos ao CEO e a outros executivos da companhia fossem cortados ao meio e que a outra metade fosse usada para aumentar a remuneração dos demais funcionários”.

De acordo com a matéria publicada, Abigail integra a organização Patriotic Millionaires (Milionários Patriotas), formada por mais de 200 milionários americanos que defendem a elevação do salário mínimo e de impostos sobre os ricos. Ela reconheceu ainda que alguns funcionários de parques temáticos da Disney enfrentam dificuldades para pagar produtos de necessidade básica, como, por exemplo, remédios. Para a herdeira Disney, um corte nos bônus faria pouca diferença na qualidade de vida dos que estão no topo dos salários da Disney. “Talvez não possam comprar uma terceira casa. Ou outro barco”.

Resistências

Algumas poucas centenas de milionários e instituições atentas às pressões do ambiente podem ser insuficientes para reverter a crise que aguarda o futuro do capitalismo. O articulista Phil McDuff, do Guardian, acredita que o poder político e econômico não vai abrir mão das suas crenças, mesmo que milhares de crianças e jovens matem aulas para exigir tratamento urgente para a questão do clima, por exemplo.  “Qualquer política significativa tem que perturbar a base de poder estabelecida e a classe de doadores políticos. Qualquer política que não incomode essas pessoas será inútil”, diz McDuff.

Para o articulista, a manipulação por parte dos detentores de poder é evidente. Há, para Duff, jogos de cena. Reuniões de cúpula são apenas encontros para a simulação de iniciativas, mas que não tocam nas questões mais essenciais das relações e do sistema de produção. Algo que precisa ser visto pela população. “Fingir que podemos comprometer nosso caminho, enquanto esperamos por uma bala mágica e tecnológica que mantenha as temperaturas baixas, sem nos custar nada, está além da ignorância intencional agora. É uma questão de moralidade básica”, diz o articulista.